Quinta, 23 de Maio de 2013
Pesquisa na RTP Açores - Informação e Desporto

Comunidades

Irene Maria F. Blayer, Lélia Pereira Nunes

2013-05-19 04:47:18

FESTA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO B.I. DA CULTURA AÇORIANA NO SUL DO BRASIL -- Lélia Pereira Nunes







Willy Zumblick, Glória ao Divino Espírito Santo,1980
1,25x1,10 m.

FESTA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO  B.I.  DA CULTURA  AÇORIANA NO SUL DO BRASIL --       Lélia Pereira Nunes


- FESTA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO -
B.I. DA CULTURA AÇORIANA NO SUL DO BRASIL



Se me fosse dada a tarefa de construir um mapa cultural do Brasil e ali registrar as principais festas religiosas tradicionais que ocorrem na vastidão territorial do País, com absoluta certeza, a Festa do Divino Espírito Santo seria de longe a manifestação de maior incidência cultural em todos os vinte seis Estados da Federação e Distrito Federal, desde o Amapá até o Rio Grande do Sul ou de Sergipe à Amazônia. Se esta representação cartográfica fosse sinalizada, simbólicamente, com uma emblemática bandeirinha vermelha (a do Divino) em todos os municípios brasileiros que celebram o Espírito Santo, de um total de 5.565, o resultado quantitativo seria surpreendente. Um Brasil inteiro vestido de Espírito Santo tal é a forte presença do culto e sua celebração por terras de Vera Cruz.
Popularizado como “Culto ao Divino” tem especial visibilidade no Sul do Brasil, sobretudo em Santa Catarina, alimentada por uma tradição de 265 anos que, mesmo modificada na passagem do tempo, se faz sentir em plenitude por todo o litoral e,também, na serra catarinense onde foi levada por tropeiros paulistas, gaúchos e insulares açorianos.
A Festa do Espírito Santo constitui a maior expressão de transnacionalidade cultural a partir da emigração açoriana do Séc. XVIII para o Sul do Brasil. Paradigma de excelência de uma situação imigratória cujo estudo, apesar de ter um recorte individual, é um ótimo exemplo na abordagem da complexidade e da diversidade da cultura brasileira e, ainda, na compreenção do fenômeno social da mobilidade humana.
As mais antigas referências sobre a existência da Irmandade e a celebração da festa em Florianópolis datam de 1773, ano da instituição da Irmandade do Divino Espírito Santo da Paróquia Nossa Senhora do Desterro e de 1776, ano da realização da primeira Festa do Espírito Santo. Somente em 1806 aconteceu a primeira Festa com Coroação, sendo coroado o açoriano Capitão Manoel Francisco da Costa.
Passaram 237 anos a Festa não arrefeceu. Cresceu e se expandiu na região da Grande Florianópolis e para além, salvaguardando a sua memória cultural e evitando que enfraqueça a sua celebração.
Neste 19 de maio é o Domingo de Pentecostes, domingo da “pombinha”, da celebração do Espírito Santo. A bandeira do Divino,desde a Páscoa, realiza o seu périplo onde não falta o tambor,a viola, a rabeca, a cantoria dos foliões e o pedido de esmola para fazer a Festa em louvor ao Divino Espírito Santo.
Por todo Estado de Santa Catarina, é tempo do Espírito Santo.São os caminhos do Divino abertos por naus açorianas ou baleeiras aladas no distante século XVIII. Trilhá-los é reacender junto ao espelho da memória parte de um caminho do passado, e de agora, ancorados nos valores culturais e na religiosidade telúrica que entre signos sagrados e profanos, emerge com a força de resistência nascida da alma coletiva ou, intencionalmente, (re)inventada.
As mundividências de uma açorianidade sobrevivente por ritos ancestrais de oralidade encontram na Festa do Divino Espírito Santo o seu pulsar e o rosto de sua identidade. Eis, o R.G. da cultura açoriana temperado com o jeito maneiro de ser da nossa gente catarina.
Viva o Divino Espírito Santo!

Florianópolis,Ilha de Santa Catarina,15 de maio de 2013

********************




por : Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer
Tags : Canadá,Brasil,Portugal,Açores

link deste artigo | comentar/ver comentários(0)
2013-05-17 03:52:35

EXPOSIÇÃO "O SAGRADO NA OBRA DE VERA SABINO

EXPOSIÇÃO  O SAGRADO NA OBRA DE VERA SABINO

Será aberta na próxima segunda-feira 20/05/2013 a mostra ¨O Sagrado na Obra de Vera Sabino¨, no Espaço Cultural Governador Celso Ramos do BRDE, com curadoria do Artespazio Escritório de Arte.
Esta exposição concentra-se em uma das principais temáticas da artista: o sagrado. Obras sacras da artista enriquecem culturalmente o cenário de igrejas da ilha de Santa Catarina, como a Igreja de Nossa Senhora de Guadalupe, em Canasvieiras, a Igreja de Sant´Ana na praia da Armação e a Igreja de São Luiz na Agronômica, além de estar presente em muitas coleções particulares através das imagens de Santos, da procissão de Nosso Senhor dos Passos, da Festa do Divino e da Santa Ceia.

Presentes na mostra, quadros em sua técnica mais conhecida, acrílica sobre Eucatex, assim como trabalhos em nanquim sobre papel.

Imagens sacras do acervo pessoal da artista também estarão em exibição nesta mostra.

Vera Sabino busca referência nas imagens bizantinas dos ícones, sendo o uso de dourado frequente no fundo de suas imagens sacras. Outras soluções também empregadas pela artista são as referências arquitetônicas das igrejas locais criando perspectiva e o uso de elementos da natureza, presentes nas demais temáticas da carreira da artista.

O Artespazio Escritório de Arte com esta exposição faz um recorte na produção recente de Vera Sabino, reunindo peças de arte sacra de sua coleção e seus quadros que trazem em si a espiritualidade e a arte da pintora.

Artespazio Escritório de Arte

Antonio Macedo Fasanaro e Fabrício Tomazi Peixoto – marchands



O Sagrado na Obra de Vera Sabino

Abertura: 20 de maio, às 19 horas;

Visitação: 21 de maio a 07 de junho, das 9h às 19h, de segunda a sexta-feira;

Local: Espaço Cultural Governador Celso Ramos

Av. Hercílio Luz, 617 – Centro – Florianópolis

Curadoria: Artespazio Escritório de Arte

www.artespazio.com.br





por : Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer
Tags : Açores,Portugal,Brasil,Canadá

link deste artigo | comentar/ver comentários(0)
2013-05-18 12:57:13

Guilherme Cabral, "Hymno do Espirito Santo" - Olegário Paz (c/áudio)

 

Açorianidade - 152 [Guilherme Cabral, "Hymno do Espirito Santo", Grupo C. das Lajes do Pico, "Hino do Espírito Santo"]

PorqueHojeEhSabado
2013.05.18

 









HYMNO DO ESPIRITO SANTO

 

POR OCASIÃO DA REPARTIÇÃO D'ESMOLAS

 

Alva pomba, que meiga appar'cestes
Ao Messias no rio Jordão;
Estendei vossas azas celestes
Sôbre os povos do órbe christão. 

CÔRO 

Vinde! oh vinde! entre nuvens de gloria,
Entre os anjos e bençãos d'amôr:
Entre os cantos d'eterna victoria
Que os ch'rubins Vos elevam, Senhor!

Quem aos pobres, seus braços estende,
Quem seus hombros encobre á nudez;
Cá no mundo, a ventura lhe rende,
E no céo, gloria eterna, talvez!

CÔRO

Vinde! etc.

Opulento! Entre-abri vosso cofre:
Se trasborda, é que tende de mais.
Vosso irmão tem de menos, e soffre,
Nada goza, e é só vós que gozaes.

CÔRO

Vinde! etc.

 Acudi com estas off'rendas,
Offertae-lh'as em nome de Deos;
Talvez sejam as unicas sendas
Que conduzam ao reino dos ceos. 

CÔRO

Vinde! etc.

Vinde irmãos! vinde todos, contrictos,
Uma esmola d'amôr offertar:
É dever consolar os afflictos,
E dos pobres, a fome matar.

CÔRO

Vinde! etc.

Traga rosas e ramos de louro,
Quem esmóla melhor, não tiver!
Pobre embora; esta offerta é thesouro,
Ganhará o brasão d'esmoler!

CÔRO

Vinde! oh vinde! entre nuvens de gloria,
Entre os anjos e bençãos d'amôr:
Entre os cantos d'eterna victoria
Que os ch'rubins, Vos elevam, Senhor!

 

 

Guilherme Read Cabral,
Em Pleno Atlantico,
Ponta Delgada, Tip. Açoriana, 1879.

 

 Guilherme Read Cabral (1821-1897), funcionário da Alfândega, político, poeta, natural de Portsmouth, Inglaterra, residiu e trabalhou nas cidades de Funchal (Madeira), Horta (ilha do Faial) e Ponta Delgada (ilha de S. Miguel) onde veio a falecer.





 



IMAGEM de Glocal Christianity (http://mattstone.blogs.com/)



por : Irene Maria F. Blayer - Lelia Pereira Nunes
Tags : Canadá,Brasil,Portugal,Açores

link deste artigo | comentar/ver comentários(0)
2013-05-21 07:02:25

A partida - Dora Nunes Gago



A partida

                                                                           

     A carrinha afastava-se, seguida por uma onda de poeira. Para trás ficava os retalhos da infância e da adolescência, semeados naquela terra dourada. Pedro já era um homem. Por isso, partia para conquistar o pão lá longe, onde a vida parecia sorrir. Então porquê aquele nó na garganta? Aquela teia no estômago que lhe subia até ao peito e quase o estrangulava? Aquelas lágrimas secas que lhe nasciam e morriam nos olhos? A sua terra natal já ficara para trás. Mas cada vez mais parecia mais viva e presente na memória. As brincadeiras, os amigos, a família, o namorico com a Joana...

    Não, não se podia esquecer que até era um felizardo. Trabalharia, pelo menos um ou dois anos, em Espanha, na construção civil. Ainda não assinara o contrato nem tinha garantias de nada, nem sequer conhecia as condições de trabalho, mas o representante do empreiteiro parecia honesto. E nos tempos que correm quem pode exigir muitas certezas?

     Ele sempre vivera com pouco. Não quisera seguir os estudos e deixara a escola assim que havia terminado o 6° ano, portanto não podia esperar grandes oportunidades. Não é que não gostasse de estudar, mas também tinha de ajudar os pais no campo e às vezes guardar o gado. Depois, o cansaço apoderava-se dele e se pegava num livro as letras esquivavam-se-lhe numa nuvem de sono, como se fossem feitas de fumo ou de vento. Além disso, ninguém o queria para doutor, nem os pais o poderiam manter muito tempo na escola, pois as três irmãs mais novas já eram despesa suficiente.

    Enfim, a terra era mais madrasta do que mãe, tudo dela era arrancado a ferros e apenas bastava para assegurar a subsistência... Por isso, o sonho de ter uma casa e uma família sua tinha de ser conquistado de outra maneira. Assim, quando viu o anúncio no jornal lá no café da terra, nem pensou duas vezes. E o espírito aventureiro que habitava na sua família veio à tona. Bastou lembrar-se que o avô, natural de Juromenha, havia sido contrabandista e falecera precisamente com o certeiro tiro impiedoso dum guarda. O pai também ainda contrabandeara, mas o susto acabara por desencorajá-lo. Mudou de terra e de vida. Por isso, ele até tinha sorte, ia trabalhar legalmente, sem correr risco de vida e ganhar bem - fora a promessa do empreiteiro. Pedro desconhecia ainda a matéria da qual poderiam ser tecidas as promessas, a substância volátil que as habitava convertendo-as tantas vezes em espuma ou vento.

    A planície dormia ainda e o novo dia era, também ele, apenas o eco duma promessa. A viagem parecia interminável, sustentada pela ansiedade e pelo sonho. Já tinha ouvido, às vezes, histórias estranhas de gente que emigrava e era escravizada, maltratada, explorada... mas não, isso não lhe aconteceria, eram coisas que se diziam e o povo inventa tanto! Só aos outros acontecem certas desgraças, aos incautos, aos desprevenidos ou inconscientes.

     Pedro rendeu-se ao cansaço e adormeceu durante muitas horas. Sonhava com o regresso, triunfante e endinheirado, com a construção de uma casa e o casamento com a Joana.

   Ausente da realidade, nem se apercebeu de que havia atravessado a fronteira e chegara à terra de todas as promessas, junto ao barracão degradado que iria partilhar com outros oito homens, durante os próximos meses, entre a ilusão e o pesadelo, o suor, as lágrimas e os sonhos vencidos em cada poente.

 

Dora Nunes Gago



Dora Nunes Gago é professora de Literatura na Universidade de Macau (China), doutorada em Línguas e Literaturas Românicas Comparadas. Foi leitora do Instituto Camões em Montevideu (Uruguai), professora do ensino secundário e investigadora de pós-doutoramento da FCT na Universidade de Aveiro.Publicou: Planície de Memória (poesia, 1997); Sete Histórias de Gatos (em co-autoria com Arlinda Mártires), 1ªed. 2004, 2ª ed. 2005; A Sul da escrita (Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca, 2007); Imagens do estrangeiro no Diário de Miguel Torga, Fundação Calouste Gulbenkian/FCT, 2008. Além disso, tem poemas, contos, artigos e ensaios em diversos jornais, revistas e antologias.



por : Irene Maria F. Blayer - Lelia Pereira Nunes
Tags : Macau,Canadá,Brasil,Açores

link deste artigo | comentar/ver comentários(0)
2013-05-16 23:44:38

Originalidade de ESTILO e a impecável ESCRITA de Urbano Bettencourt por Lélia Pereira Nunes



Nesta noite, em sessão muito prestigida, aconteceu o lançamento do livro
« outros nomes outras guerras», na Livraria SolMar em Ponta Delgada,Açores.
Parabéns,Urbano Bettencourt e muito sucesso!

Originalidade de ESTILO e a impecável  ESCRITA  de  Urbano Bettencourt por   Lélia Pereira  Nunes

Originalidade de ESTILO e a impecável ESCRITA
          de Urbano Bettencourt

                      **
             Lélia Pereira Nunes


A editora Companhia das Ilhas anuncia para o mês de Maio a saída de mais um livro do escritor Urbano Bettencourt tendo por título :“outros nomes outras guerras”. Trata-se de breve antologia, que apresenta uma seleção de seus livros de poemas desde Raiz de Mágoa (1972), até o África frente e verso (2012). Inclui ainda uma recolha de quatro ou cinco inéditos.
Assim, quando a Primavera chegar e as Ilhas todas se cobrirem suavemente com suas flores exemplares, abundantes de beleza e cores como a Hortênsia famosa a demarcar caminhos e campos num lindo colar de pedras azuis, a Conteira amarela doce e perfumada e as Azáleas em tons de lilás a florir em profusão, sairá também o novo livro de Urbano Bettencourt, este escritor açoriano da Piedade do Pico que, sem qualquer concessão, ocupa um dos mais importantes espaços da Literatura Portuguesa contemporânea e, reconhecidamente, em outros espaços literários para além das fronteiras geográficas. No entanto, alargado seu horizonte não se distancia do torrão natal, na Ilha do Pico, dos seus afetos e memórias da Piedade e, também, de São Roque, Santo Amaro ou das pedras negras do Calhau. Lugares que um dia eu, segundo o próprio escreveu em 1995, “ atravessei o Atlântico para saber como é que nós nos temos perdido tanto e dispersado, à força de nos querermos agarrar a uns penedos atlânticos instáveis e fugazes”. Não sei se descobri o que ele sugeria nesta dedicatória assinada no seu O Gosto das Palavras II (1995) que afirma ser “um livrinho de ensaios e leituras afetivas” e que, de cara, chamei de “catecismo” pois me preparou para a maior comunhão da minha vida ao iniciar a viagem “para dentro” em descobertas infinitas na compreensão do olhar e do sentido de pertença a um espaço historial comum. Acredito até que já carregava nas veias uma certa inquietação insular por viver numa ilha ao sentir as tensões do cerco ilhéu ante o abraço aberto do Mundo ou entre o cárcere e o infinito, no poetar de J.Martins Garcia.
Devo-lhe muito do meu caminhar por essa atlanticidade literária que, no bailar das palavras, fui descobrindo e me apaixonando por este mundo de nove ilhas, que o mar encasula e liberta. Deslumbrei autores e suas obras, na expressão poética e ficcional da realidade ilhoa, um desfile sem fim de nomes ícones de uma literatura açoriana, vozes de diferentes histórias, pensamentos e gerações que Urbano Bettencourt tem dado a conhecer de forma absoluta e persistente.
Urbano Bettencourt é uma personalidade singular como professor circunspecto no exercício do magistério ou na postura do crítico literário sempre pronto a intervir, seja para aplaudir ou para negativar, impaciente com a mediocridade intelectual à superfície. Ao mesmo tempo, personifica o admirável escritor – poeta e cronista e, nesta condição, se esbalda numa deliciosa ironia, de um humor cativante e de uma malícia muitas vezes maquiada na linguagem refinada que surpreende como nos versos pícaros do poema Paisagem ante o fascinante Pico nevado: “ Um seio destes, tão perfeito/ e vasto,/ faz-se à medida do olhar guloso/e nada casto/de São Jorge,o santo de espada em riste”, uma definição aparentemente insuspeita de São Jorge, a ilha de cabelos verdes de corpo alto na poética de Carlos Faria.
Assim, de um lado, está o acadêmico, o professor de Literaturas – Portuguesa, Africanas de Expressão Portuguesa e Literatura Açoriana – da Universidade dos Açores e, também o crítico literário, o ensaísta, dono de um texto rigoroso, limpo e íntegro, numa posição de total frontalidade e de respeito ao criador e à criatura, a diversidade poética e as diferentes formas de expressão. Do outro, está o autor de ficção, de uma narrativa saborosa, vibrante, bem urdida, construída numa linguagem rica na sátira elegante, a falar de vivências, dos lugares, no descortinar da sua memória e do mundo-ilha. Está o poeta consistente, original e coerente nos seus pensamentos e no dúplice olhar marcado pelo viver insular. A poesia de Urbano Bettencourt, de singular mundividência, nos remete a distanciamentos ou a desejável aproximação, em intimidade com as Ilhas numa viagem para dentro de si e da terra – “da ilha e para ilha” (e para além). Produção literária profícua com marcas de intensa açorianidade que cabe bem adjetivar, dada a sua densidade e o estilo ímpar. Nos ensaios maiúsculos, na crítica literária corajosa, na prosa poética e mesmo na poesia, a questão da autenticidade da literatura açoriana está omnipresente em fortes e sentidas reflexões verbalizadas ou, sutilmente insinuadas.
Embora, não conheça o seu mais recente livro “outros nomes, outras guerras”, tenho a convicção que estamos diante de uma antologia de poemas onde a escrita se revela na sua essencialidade, contida é verdade, porém, a dizer-nos muito. Um jeito de escrever que traz a marca inconfundível, o sinal identitário de seu labor poético e o gosto das palavras. E que gosto! Poucas palavras, traços fortes e muita expressão. Esta é a característica da arte literária de Urbano Bettencourt – o de escrever o mais estritamente necessário e dizer tudo por inteiro, com o inegável talento e a competência de numa única frase criar uma narrativa completa sem floreios. Obras de poesia, narrativa e ensaios que são referenciais para quem ama a literatura e onde o leitor se identifica com o olhar do Autor.
Que paisagem apagarás (2010) e Africa Frente e Verso (2012),chegaram-nos como uma lufada de vento de verão, ora manso, suave, ora forte furioso a vasculhar tudo. Brisas ou ventanias do destino foi desta maneira que percebi a intensidade de seus dois últimos livros.
Em Que paisagem apagarás a suavidade de uma coletânea de textos de todo significante, prenhes de sentimentos no recriar percursos reais e imaginários e no alçar pontes por outras fronteiras, fortalecendo elos, aproximando realidades ou até saboreando o imprevisível chá da imaginação. A conversa aparentemente hilária, mas que deixa antever a fraternidade estendida dos pontos luminosos insulares da Macaronesia, corredores de mão dupla de culturas, histórias e de angústias compartidas no criativo diálogo entre Urbano de Sancho sobre “Las identidades fugaces” com um certo Juan Carlos Bettencourt das Canárias. É um livro delicioso como a brisa suave que nos afaga com sua prosa límpida ponteada de humor e muito leve no fluir compondo uma unidade paisagística exuberante que não se pode apagar. Abro um aparte, para citar a incrível secção“Breves, brevíssimas e (des)aforismos” assinada por um tal Ernesto Gregório e que Urbano Bettencourt passa a palavra, dando respostas com uma bem sacada e divertida sátira.
Que dizer de Africa frente e verso ? É o um vento forte que mexe com todo o sentir de uma geração, mesmo daqueles que não machucaram a carne e não choraram a guerra colonial. Do conteúdo e da capa (do pintor Urbano) meu olhar paira sobre uma África que é coração a pulsar, a gritar por liberdade e dignidade e, o conflito dos que, em nome da Pátria distante, defenderam a posse da terra e da gente colonizada. No verso,o coração ferido nas entranhas. Mais uma vez, a escrita de Urbano Bettencourt é de intervenção de respeito à condição humana que fez emergir nas águas cálidas do rio manchado de sangue e dos seculares embondeiros testemunhas de sua escrita na Guiné Bissau (1972-74) que a pena do poeta documenta na poesia e na prosa poética e as trouxe no seu regresso, como íntimo cheiro de África e, também, tatuado n`alma o amor pela terra morena que neste livro bendiz, esbraveja e chora: “[…] porque escrevo fogo/ e não resisto à fúria dos olhos das lanças/ dos laços/ em que se inscreve um país pisado/ lilás/violado em cada noite pelas bombas […]” (em porque escrevo raiva, p.18). Está patente no conjunto dos poemas e dos textos sobre a memória dos anos do flagelo da guerra e da violência, vividos por Urbano Bettencourt e por companheiros de farda, na visão da morte descrita no antológico texto Noite que, agora (re)publicado, fortalece a agudeza de seu olhar sobre uma realidade de 40 anos atrás e ainda muito presente.
Na nota de abertura “Voltando atrás” do África frente e verso, Urbano Bettencourt esclarece que estes os poemas e textos são posteriores ao seu primeiro livro “Raiz de Mágoa”, publicado na primavera de 1972. Será que teremos que aguardar uma nova Primavera para vê-lo (re)editado?
Nesta Primavera, em tom lilás das azáleas, brinda-nos Urbano Bettencourt com “outros nomes outras guerras” no seu estilo original e mitológico.

Florianópolis,19 de março de 2013



_________________________________

(*) Foto sessão https://www.facebook.com/urbano.bettencourt



por : Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer
Tags : Canadá,Brasil,Portugal,Açores

link deste artigo | comentar/ver comentários(1)
2013-05-23 10:33:14

Poema do Dia:Naquele Tempo Éramos Donos Emanuel Jorge Botelho

Do «POEMA do DIA»,uma rubrica da Associação Despe-te-que-suas em coprodução com Antena1/Açores e o patrocínio da Direção Regional da Cultura,Governo dos Açores,sob a Direção de
 Nelson Cabral e Consultoria de Urbano Bettencourt, apresentamos o poema
« Naquele tempo Éramos Donos».

Dito: Emanuel Jorge Botelho
Comentários: Sònia Chagas e Urbano Bettencourt

Poema do Dia:Naquele Tempo Éramos DonosEmanuel Jorge Botelho





            


NAQUELE TEMPO ÉRAMOS DONOS
 

Naquele tempo éramos donos

das palavras,

não pagávamos tributo ao dicionário.


Naquele tempo fazíamos dos actos

factos,

ignorávamos os agiotas da decência.


Éramos dragões vomitando fogo,

lava,

origem,

trigo e

irreverência.


Éramos libertinos, libertários,

vagabundos

sentados nas sarjetas da

inocência.


Naquele tempo éramos donos

naquele tempo éramos

naquele tempo ...

                       -1978-




por : Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer
Tags : Canadá,Brasil,Portugal,Açores

link deste artigo | comentar/ver comentários(0)
2013-05-20 12:18:39

"Que bom é ser Açoriano!"

Que bom é ser Açoriano!

No Canadá - onde resido - é feriado nacional, dia de festividades por todo o país; celebra-se o aniversário da Rainha Victória.  Nos Açores, decorrem as celebrações do Dia dos Açores. Símbolo da nossa Autonomia. Neste dia ergue-se e assume-se - no eu açoriano - um espaço de emoção composto de gestos, de palavras, de ritmos, de memórias cuja consciência colectiva se harmoniza numa 'voz insular' de intensa relação com a terra mater. Para os  Açorianos nos Açores e espalhados pela diáspora, 'viver' as manifestações em louvor a este NOSSO dia, é fixar e afirmar o testemunho da nossa 'açorianidade'; é saber reiterar orgulhosamente as palavras do ex-Presidente do Governo dos Açores, Carlos César, neste Dia da Região em 2009 na cidade de Toronto: "Tenho a certeza que nunca há-de faltar uma razão para que não se pense e não se diga: Que bom é ser Açoriano!".Irene Maria F. Blayer e Lélia Pereira Nunes20 de Maio de 2013

por : Irene Maria F. Blayer - Lélia Pereira Nunes
Tags : Canadá,Açores

link deste artigo | comentar/ver comentários(0)

Este blogue é  sobre a perspectiva da distância, o olhar de quem vive os Açores radicado na América do Norte, na Europa, no Brasil, ou em qualquer outra região. É escrito por personalidades de referência das nossas comunidades com ligações intensas ao arquipélago dos Açores.

Irene Maria F. Blayer was born in  Velas, São Jorge, Azores, and lives in Niagara-on-the-Lake, Ontario, Canada.  She holds a Ph.D. in Linguistics (1992) and is a Full Professor (Doutorada em linguística, é Professora Catedrática) at Brock University. Neste espaço procura-se a colaboração de colegas e amigos cujos textos, depoimentos, e outros -em Inglês, Português, Francês, ou Castelhano- sejam vozes que testemunhem a  nossa 'narrativa' diaspórica, ou se remetam a uma pluralidade de encontros onde se enquadra um universo  que  contempla uma íntima proximidade e cumplicidade com o nosso imaginário cultural e identitário.

Lélia Pereira da Silva Nunes - Brasil
Nasceu em Tubarão, vive em Florianópolis, Ilha de Santa Catarina. Socióloga, Professora da Universidade Federal de Santa Catarina, aposentada, investigadora do Patrimônio Cultural Imaterial (experts/UNESCO,Mercosul), escritora e, sobretudo, uma apaixonada pelos Açores. Este é um espaço, sem limites nem fronteiras, aberto ao diálogo plural sobre as nossas comunidades. Um espaço que, aproximando geografias, reflete mundivivências a partir do "olhar distante e olhar de casa," alicerçado no vínculo afetivo e intelectual com os Açores. Vozes açorianas, onde quer que vivam, espalhadas pelo mundo e, aqui reunidas num grande abraço fraterno, se fazem ouvir. Azorean descent.-- Born in Tubarão(SC) and  lives in Florianopolis, Santa Catarina Island,Brasil. She holds postgraduate degreees  in Public Administration, and is an Associate Professor at Federal University of Santa Catarina.

 

--------------------------------------------------------------

Nota: é proíbida a reprodução de textos e fotos deste blogue sem autorização escrita do Multimédia Açores.

Note: Reprint or reproduction of materials from "Comunidades" is strictly prohibited without written permission from Multimedia RTP.

---------------------------------------------------------------

        
DomSegTerQuaQuiSexSab
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031