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Do achamento e do nome do Brasil
Sobre o achamento do Brasil têm-se dividido as opiniões dos historiadores. Há os que pensam que se tratou do descobrimento de uma terra desconhecida, outros que, quando Pedro Álvares Cabral lá aportou, já sabia ao que ia. A versão de que a frota se teria desviado por causa de uma tempestade só surgiu muito depois de 1500, mas do relato de Pêro Vaz de Caminha não pode depreender-se esta hipótese. E uma tempestade, forte o bastante para desviar os navios do seu rumo, sê-lo-ia também para os fazer separar uns dos outros, pelo que dificilmente teriam navegado em conserva até ao final da viagem.
No relato do cronista não há aparência de surpresa ao descrever o avistamento da costa brasileira, o que leva a supor que se tratou de um acontecimento esperado. Além de outros sinais que terão feito acreditar na possibilidade da existência de terras desconhecidas naquelas latitudes, várias viagens haviam chegado já ao Novo Mundo, e numa delas, em 1499, Alonso de Hojeda terá atingido a costa do Nordeste brasileiro. Era fácil, pois, aceitar a ideia de que no Atlântico Ocidental se encontraria uma sucessão de incontáveis ilhas e, além delas, talvez mesmo uma imensa terra firme. E foi esta questão, tratar-se de uma ilha ou de terra firme, uma das dúvidas dos descobridores a respeito do Brasil.
Outra dúvida, a da origem do nome, é um problema moderno. Nada nos descobrimentos portuguesas mostra que os nossos mareantes obedeciam a mitos, antes cumpriam planos rigorosamente elaborados. Portanto, ligar aquele nome a lendas célticas parece mais fruto de uma imaginação fértil ou ousada do que de um interessado rigor histórico. A palavra brasil e a composta pau-brasil existem na Língua Portuguesa desde tempos antiquíssimos. Ao concluir a carta do achamento levada por Gaspar de Lemos a D. Manuel, Pêro Vaz de Caminha escreveu: “deste porto seguro da vossa jlha de vera cruz oje sesta feira do primeiro dia de mayo de 1500.” (Na carta que D. Manuel escreverá aos Reis Católicos dando-lhes a nova do achamento, o nome com que referirá o Brasil será o de Terra de Santa Cruz.) Embora houvesse na frota quem pensasse que haviam tocado um continente (“terra firme”), a ideia dominante foi a de que se tratava de uma ilha. Mestre João, o astrónomo que acompanhou a expedição para determinar a situação geográfica das terras a que aportasse, enviou também uma carta a D. Manuel, na qual disse: “Quanto, Senhor, ao sítio desta terra, mande Vossa Alteza trazer um mapa-múndi que tem Pero Vaz Bisagudo e por aí poderá ver Vossa Alteza o sítio desta terra; mas aquele mapa-múndi não certifica se esta terra é habitada ou não; é mapa dos antigos e ali achará Vossa Alteza escrita também a Mina. Ontem quase entendemos por acenos que esta era ilha, e que eram quatro, e que doutra ilha vêm aqui almadias a pelejar com eles e os levam cativos.” No final da carta escreveu: “Feita em Vera Cruz no primeiro de maio de 1500.” Portanto, e apesar da convicção de que aquela suposta ilha vinha referida em mapas antigos, não lhe foi dado nenhum dos nomes neles contidos. E se acaso o nome Brasil, que só surgirá uns anos mais tarde, se devesse à crença nas velhas lendas célticas, teria sido certamente o de Ilha Brasil o primeiro nome dado ao imenso território. João de Barros, nas Décadas (1552), deixou dito: “…tanto que daquela terra começou de vir o pau vermelho chamado brasil, trabalhou que este nome ficasse na boca do povo, e que perdesse o de Santa Cruz. Como que importava mais o nome de um pau que tinge panos, que daquele pau que deu tintura a todos os sacramentos por que somos salvos, por o sangue de Cristo Jesus que nele foi derramado.” E, no século seguinte, Frei Vicente do Salvador, autor da primeira História do Brasil e que possivelmente leu João de Barros, haveria de escrever: "como o demónio com o sinal da cruz perdeu todo o domínio que tinha sobre os homens, receando perder também o muito que tinha em os desta terra, trabalhou que se esquecesse o primeiro nome Santa Cruz e lhe ficasse o de Brasil".
Na carga que Gaspar de Lemos trouxe no seu regresso ao Reino, vinha grande quantidade de pau-brasil, que foi a principal razão das viagens que se seguiram à da descoberta. Mas em breve outros corantes o fariam perder a importância que tinha na tinturaria.
Duvidosa permanece a origem mítica do nome do Monte Brasil, na ilha Terceira. Dificilmente se arranjarão argumentos, quer para a defender quer para a negar. A primeira vez que o nome está documentado é no mapa esquemático de Valentim Fernandes, de 1507, onde consta como o brassill. Luís Teixeira, no mapa que fez das ilhas dos Açores a mando de Felipe II (Filipe I de Portugal), registou-o como P.ª del Brazil, e, na descrição das ilhas em mapas de 1587, escreveu: “…dois portos, um é o de Angra, junto à cidade, o outro o do Fanal que com duvidosos tempos podem estar em cada um, que são de uma parte e outra do Brasil que é a ponta que mostra ser alta.” Gaspar Frutuoso refere-se-lhe como Brasil ou ponta do Brasil. No entanto, a lenda de origem céltica passara a Portugal não como Brasil somente, mas como Ilha Brasil.
Maia, São Miguel, Açores.
Daniel de Sá
Este blogue é sobre a perspectiva da distância, o olhar de quem vive os Açores radicado na América do Norte, na Europa, no Brasil, ou em qualquer outra região. É escrito por personalidades de referência das nossas comunidades com ligações intensas ao arquipélago dos Açores.
Irene Maria F. Blayer was born in Velas, São Jorge, Azores, and lives in Niagara-on-the-Lake, Ontario, Canada. She holds a Ph.D. in Linguistics (1992) and is a Full Professor (Doutorada em linguística, é Professora Catedrática) at Brock University. Neste espaço procura-se a colaboração de colegas e amigos cujos textos, depoimentos, e outros -em Inglês, Português, Francês, ou Castelhano- sejam vozes que testemunhem a nossa 'narrativa' diaspórica, ou se remetam a uma pluralidade de encontros onde se enquadra um universo que contempla uma íntima proximidade e cumplicidade com o nosso imaginário cultural e identitário.
Lélia Pereira da Silva Nunes - Brasil
Nasceu em Tubarão, vive em Florianópolis, Ilha de Santa Catarina. Socióloga, Professora da Universidade Federal de Santa Catarina, aposentada, investigadora do Patrimônio Cultural Imaterial (experts/UNESCO,Mercosul), escritora e, sobretudo, uma apaixonada pelos Açores. Este é um espaço, sem limites nem fronteiras, aberto ao diálogo plural sobre as nossas comunidades. Um espaço que, aproximando geografias, reflete mundivivências a partir do "olhar distante e olhar de casa," alicerçado no vínculo afetivo e intelectual com os Açores. Vozes açorianas, onde quer que vivam, espalhadas pelo mundo e, aqui reunidas num grande abraço fraterno, se fazem ouvir. Azorean descent.-- Born in Tubarão(SC) and lives in Florianopolis, Santa Catarina Island,Brasil. She holds postgraduate degreees in Public Administration, and is an Associate Professor at Federal University of Santa Catarina.
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