Quarta, 22 de Maio de 2013
Pesquisa na RTP Açores - Informação e Desporto

Comunidades

Irene Maria F. Blayer, Lélia Pereira Nunes

2012-07-23 16:29:31

Crônica: Sessenta e dez *** Sérgio da Costa Ramos



foto:Ricardo Wolffenmbutte


Sessenta e dez

O frio produziu uma névoa úmida, cortina que desenhou sobrancelhas nos dois faróis do misterioso carro negro que subia a Praça da Matriz, no exato momento do relógio da Catedral bater horas: soixante-dix. Sessenta-dez.
Talvez o veículo Vintage, mas ao mesmo tempo carruagem e abóbora mutante, de séculos ainda mais antigos, explicasse a festa no interior da cabine, artistas que já moraram na Rue des Abesses, na inspiradora vizinhança da Place de Tertre: Toulouse-Lautrec, Césanne, Pissarro, Monet, Gauguin – e outros nomes do impressionismo e do pré-modernismo francês.
O carro parou ao meu lado, na calçada do Poema Bar. E o cicerone dessa turma,Monsieur le Peintre, abriu-me a porta com o convite:
- Entra aí, deu soixante-dix!
Hora nova, capaz de juntar num carro onírico um caleidoscópio de épocas e escolas - e de reunir pincéis da arte pictórica de hoje e dos séculos XIX e XX. Para minha surpresa, não encontrei no “salão” do Rolls-1920 nem Woody Allen, nem Hemingway – que poderiam sugerir ter embarcado num filme ou num romance.
O carro passou diante da igreja que Dias Velho fundou e a primeira parada foi na Rua do Imperador, como se chamou, um dia, a rua Tenente Silveira. Ali, na esquina, materializou-se a exposição dos Chateaux Bordeaux, com direito à degustação das melhores obras de arte já engarrafadas, a atmosfera reconstituindo os castelos onde a uva passava pela mágica transição. Cálices retiniram, mulheres de cintura fina ergueram sua pernas, como se fossem cálices e hastes – com a permissão do mulherólogo Vinicius de Moraes, que não estava no carro, mas apareceu na esquina, trocando o uísque pelo vinho.
A próxima parada foi na Rua Moinhos de Vento, velho nome da Felipe: ali, a festa continuou, numa sala de cristais e pratas polidas, toalhas bordadas e engomadas. Um culto à mesa, ao vinho, e, outra vez, uma homenagem ao colo e às costas das mulheres, espáduas sobre as quais se derrama a tinta intemporal do artista.
Na rua Augusta (a João Pinto), onde um dia se hospedou o Cine Imperial, ao lado da Companhia Western e do seu relógio Vintage, o carro se deteve para examinar os cartazes: estavam “levando” Le Libertin – filme francês, como se dizia antigamente de qualquer filme com mulher de peito de fora. Quem sabe um filme com La Bardot, ou, um desfile - um pedaço “noir”, outro em cores vivas - mulheres passeando no alto dos seus saltos, sirigaitas de espáduas nuas, penduradas numa tela do Hotel de la Coste, ou no filme d’Amélie Poullain. Não só os prazeres da carne, mas os do tato - e os demais ingredientes da paleta machadiana: a mesa posta, cristais brilhantes, a luz quente das velas, o bom vinho, o paladar dos pratos e das palavras poéticas.
O carro parou na Farmácia Vitória, sopé da Praça da Matriz, a turma precisando de um Alka-Seltzer, efervescência para combater os excessos da comida e da bebida. E foi logo adiante, no Largo da Alfândega, à margem da Rua do Príncipe (Conselheiro Mafra), que se armou a lona do “Grande Circo”, picadeiro através de cuja serragem Monsieur le Peintreregressa aos anos 1950, equilibra-se num arame, anda de bicicleta, engole fogo e brinca com pincéis, tintas e cartolinas.
Pulando 20 anos, o circo sai de seus poros e entra em sortidas veias: vira escultor, desenhista, caricaturista, mímico, designer, cenógrafo, escritor, fotógrafo e ator – uma espécie de Marcel Marceau eletrônico, com aparições no “Fantástico”.
Sucederam-se as esquinas da Rua do Livramento (Trajano), com o Café do Ponto Chic, travestido de Caffé Florian, à beira da Piazza San Marco, a poucos metros do velho Miramar e da Laguna Floripana, com seu Carnaval, suas máscaras e seus mistérios.
Ali, defronte para o mar, passou, navegando como uma nave felliniana, os cenários de “Diário de Bordo”, porto de partidas e de chegadas, “porque dentro de um barco um homem se transforma”, se torna “outro” - como quer o verso de Fernando Pessoa.
Ainda faltam muitas paradas, muitas esquinas, e o carro dos múltiplos artistas chegará hoje às 19h30m ao CIC. Lá atracará num trapiche da “Ilha de Santa Catarina”, carregando no seu casco a velha dama figueira, agarrada ao pedacinho de terra, orgulhosa, entre os seus nativos: “poetas de letras e vida, pescadores, rendeiras, boêmios, bruxas, fadas, sábios, todos os ritos da tradição e dos costumes”.
***
Não esperem o carro passar. Apareçam. Juarez Machado está fazendo sessenta e dez. Como um Benjamin Button, que nasceu velho e morreu menino, o artista coloca o carro de frente pra trás e, de ré, convida o leitor a passear pela vida que ele pintou.



Nota: Crônica publicada na coluna diária do escritor Sérgio da Costa Ramos,  Diário Catarinense, de 19 de julho de 2012.
Reproduzida no Comunidades com a devida apermissão do autor.

Créditos: Foto 1. - Agência RBS,18/7 www.clicrbs.com.br
                 Foto 2. - Lélia Nunes,19/7


por : Lélia Pereira Nunes & Irene Maria Blayer
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2012-07-22 21:07:45

“Soixante-dix” – a fascinante exposição dos 70 Anos de Juarez Machado

Pintei esta coleção de quadros em 2011 para expô-la em Paris e no Brasil, numa justa homenagem a mim mesmo. É um grande deboche, uma caricatura de um artista de 70 anos
       Juarez Machado


foto: James Tavares

“Soixante-dix” – a fascinante exposição dos 70 Anos de Juarez Machado

“Soixante-dix” – a fascinante exposição dos 70 Anos de Juarez Machado

No Museu de Arte de Santa Catarina (MASC), em Florianópolis está aberta ao público desde 19 de Julho, a belíssima exposição “Soixante-dix” do artista plástico Juarez Machado, em celebração ao aniversário de 70 anos do pintor catarinense,natural de Joinville. O pintor volta a Florianópolis depois de 14 anos quando apresentou a inesquecível exposição “A ILHA” (março de 1998, Centro Integrado de Cultura) em que homenageia a Ilha, a cidade de Florianópolis e o povo ilhéu com seus costumes e vivências, tradições religiosas, sabores, paixões, fetiches, imaginário fantástico, os artistas e escritores, suas obras e textos (prosa e poesia) que inspiraram ( e inspiram) a sua arte pictórica.

   
Florianópolis, em clima de festa de aniversário e grande celebração, orgulhosa recebe a arte de Juarez Machado que, em 16 de Março de 2011, completou 70 anos com a exposição “Sixante-dix” realizada em Paris, cidade onde vive, apresentando uma coleção de setenta telas comemorativa ao natalício.
Uma edição dedicada às sete décadas de vida e de arte, uma belíssima narrativa visual onde não faltou o toque de humor e picardia, de elegância e de genialidade inconteste: “Pintei esta coleção de quadros em 2011 para expô-la em Paris e no Brasil, numa justa homenagem a mim mesmo. É um grande deboche, uma caricatura de um artista de 70 anos —revela Juarez Machado, com grande humor em entrevista à jornalista Viviane Bevilacqua, do Diário Catarinense. Seria mesmo “um deboche com a idade 70” ou “um culto de amor a mim mesmo” ,como afirmou o artista? Não creio e vou mais além: temos aqui uma verdadeira ode ao amor e à vida celebrada em íntima comunhão com sua Arte. Uma arte máscula, fascinante que enche os olhos,encanta,alegra e que ao longo dos anos admiramos,cultuamos com verdadeiro fervor. O ícone das artes plásticas catarinenses - Juarez Machado -  é mágico!
Para a exposição de Florianópolis, além de obras inéditas, esculturas, o visitante poderá apreciar um verdadeiro varal de elegantes e criativas vestimentas usadas em exposições, no ambiente de trabalho e alguns trajes que Juarez usou no Fantástico (TV Globo), na década setenta, onde encantava o País com sua performance de mímico na abertura de quadros do programa dominical. A exposição no MASC inclui acervo fotográfico, precioso registro documental, informações sobre os diferenes “ateliers” de Juarez no Brasil e no exterior. E, claro, entre tantos objetos significativos que fazem parte da história do notável pintor de Joinville (a terra das bicicletas) não poderia faltar a famosa bicicleta de rodas quadradas: "Uma bicicleta de rodas quadradas para andar em uma cidade cheia de buracos redondos. E eu me refiro a Florianópolis e a Joinville", justifica o artista.



No MASC, Museu de Arte de Santa Catarina, está o resultado de uma fabulosa produção, de verdadeiro labor artístico que nos surpreende tanta pela criatividade,talento, genialidade e beleza quando pela sensibilidade de narrar com grande maestria a trajetória do catarinense Juarez Machado, desde a sua infância na germânica Joinville e a  vivência no Rio de Janeiro onde conviveu com os cartunistas Henfil e Jaguar. Sua arte humorística e crítica ilustrou O Pasquim, Jornal do Brasil, Manchete, Fatos e Fotos e Ele e Ela. Sua trajetória artística levou-o as mais importantes Galerias de Arte realizando incontáveis exposições individuais e coletivas, montando atelier em Paris, Nice, Veneza e New York ,Rio de Janeiro, Curitiba, Joinville – seu torrão natal e para onde sempre regressa.
A exposição “Soixante-Dix” estará aberta ao público até 05 de agosto de 2012.numa promoção conjunta entre a Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esporte, a Fundação Catarinense de Cultura, o Museu de Arte de Santa Catarina e o Instituto Internacional Juarez Machado.
Um verdadeiro presente à Ilha e a sua gente catarina.
Obrigada, Juarez Machado!


Minha melódica vida é colorida.
Juarez Machado
   Paris,2011

___________________________________

Créditos e Legenda:

1. James Tavares, 19/7/2012
2. Imagem Convite, Assessoria C.Social do Artista
3. Festa do Espírito Santo, ,Paris,1997,inspirado no texto de Lélia Nunes-  Exposição ILHA DE SANTA CATARINA, E.Simões de Assis Galeria de Arte, Curitiba. 1998.
4. Ricardo Wolffnmbutte/ag.RBS, Diário Catarinenses,18 de julho de 2012
    www.clicrbs.com.br
5. Lélia Nunes,19/7/ 2012












por : Lélia Pereira Nunes & Irene Maria Blayer
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2012-03-22 22:22:13

World Poetry Day, 21 March 2012 *** Message from Ms Irina Bokova, Director-General of UNESCO

World Poetry Day, 21 March 2012 ***Message from Ms Irina Bokova, Director-General of UNESCO

Message from Ms Irina Bokova, Director-General of UNESCO, on World Poetry Day, 21 March 2012

Poetry is one of the highest forms of linguistic and cultural expression. Giving complete creative and verbal freedom, it is an integral part of peoples’ identities and, like music, dance and art, also often helps us to create our own personal identity.

Poetry is also the place where the profound link between cultural diversity and linguistic diversity is forged. The language of poetry, with its sounds, metaphors and grammar, stands as a barrier against the deterioration of the world’s languages and cultures. By exploring the great potential of language, poetic creativity enriches intercultural dialogue, the guarantor of peace.

UNESCO has been celebrating World Poetry Day for the past 12 years. In a constantly evolving world, a world of rapid change and social transformation, poets have a presence alongside civil movements and know how to alert consciences to the world’s injustices as well as encourage appreciation of its beauty. We can also see potential in new technologies and short messages that circulate on social networks, breathing fresh life into poetry, fostering creativity and the sharing of poems and verses that can help us to engage more fully with the world.

For many years, UNESCO has been working to develop instruments and texts that respond to the cultural challenges brought about by globalization. The 2003 Convention for the Safeguarding of the Intangible Cultural Heritage and the 2005 Convention on the Protection and Promotion of the Diversity of Cultural Expressions are tools which UNESCO uses to encourage the dissemination of the world’s poetic heritage and to stimulate poetic creativity. We must ensure that we keep this vibrant spirit alive and open our eyes to see how poetry can help to bring peoples together. Today, I call on all Member States, our partners from the network of UNESCO Chairs, the UNESCO Associated Schools and civil society to celebrate poetry and ensure that in school textbooks, public places and on the walls of our towns, it is given its rightful place as a central part of our shared cultural vitality.

- - -


por : Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer
Tags : Brasil,E.U.A.,Canadá,França

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2012-02-06 23:59:10

“Açorianos no Mundo: Onde Estamos?/Azoreans in the World: Where are we?”





"Açorianos no Mundo: Onde Estamos?/Azoreans in the World: Where are we?"










A Direção Regional das Comunidades lançou no dia 3 deste mês, em parceria, com a ACORESTUBE e a ACORESPRO, um passatempo no facebook, "Açorianos no Mundo: Onde Estamos/Azoreans in the World: Where are we?"
Este concurso tem como destinatários emigrantes e açor-descendentes residentes fora do território português. Cada concorrente, independentemente da idade, poderá publicar na página do concurso uma fotografia sua, tirada no seu local de residência. A foto deve conter uma bandeira dos Açores apresentada da forma que desejar. A fotografia vencedora será a que tiver obtido maior número de "Gosto/Like", sendo o prémio a atribuir uma viagem aos Açores.

O concurso, aberto de 3 de fevereiro a 30 de Março, já está disponível na internet.
Participe! Agora é só "clicar":  
www.facebook.com/acorestube


por : Irene Maria F. Blayer - Lelia pereira Nunes
Tags : Argentina,Uruguai,França,Inglaterra,Espanha,Japão,Canadá,E.U.A.,Venezuela,Brasil,Portugal,Açores

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2011-03-25 23:34:05

"Mundo Açoriano" - o novo jornal dos Açores

"(...) A ´açorianidade` não tem princípio nem fim. As velas da nossa viagem apontam ao destino que nos quer açorianos mais próximos. Como se, agora, os degraus do cais fossem de chegada, não de partida."

             Eduardo Jorge S. Brum, Editorial
         in: Mundo Açoriano, de 25 de março de 2011




O Blog Comunidades saúda,neste dia de 25 de março de 2011, o nascimento do jornal " Mundo Açoriano", sob a direcção de Eduardo Jorge S. Brum.
Deseja longa vida ao "Mundo Açoriano" na sua trajetória por mares da insularidade levando a palavra corajosa e liberta, sempre.

   http://www.mundoacoriano.com/

Mundo Açoriano - o novo jornal dos Açores

Navegar é preciso, outra vez

O tempo presente torna imprescindível visar longe, partir à descoberta, pensar sem constrangimentos.
No planeta global em que vivemos, os Açores passaram a não ter limites e a sua imprensa não pode deixar de espelhar essa realidade. Agora, temos dimensão vasta e vivemos todos próximos. As nossas casas amanhecem com portas e janelas abertas ao mundo.
A plataforma digital permite, hoje, o estabelecimento de pontes, em todas as latitudes, com açorianos que um dia partiram e fixaram residência em outras regiões e países; permite recuperar relações de vizinhança que durante anos se haviam perdido; permite estar em contacto com pessoas que, embora não tenham nascido nos Açores, dedicam atenção ao que é nosso.
O tempo actual concede-nos esta oportunidade. Seria incompreensível não a aproveitarmos.
Este é o quadro que justifica o surgimento no dia 24 de Março de um novo jornal, intitulado “Mundo Açoriano”, cujo objectivo é contribuir para a construção de uma “ilha única”, onde caiba o Arquipélago nos seus laços com a Europa, as Américas e qualquer outra região do globo que acolha açorianos, de nascimento ou de opção.
Se for utopia, não faz mal. Precisamos dela mais do que nunca.
Navegar é a vocação que nos trouxe até aqui e que daqui nos conduzirá por rotas adiante.

Navigate we must, once again

The times we are experiencing make it indispensable to aim far, to have an open mind, to report the news without constraints.
In this global planet on which we live, the Azores no longer have defined boundaries and its press cannot but reflect this reality. Today we share this vast world dimension in which we all live as close neighbors. Our homes awake every morning with windows and doors open to the world.
Nowadays the global digital platform allows us to establish bridges, at all latitudes, with Azoreans who one day left the islands and settled in other regions and countries; it allows us to resume neighborhood relationships which had been lost for years; it allows us to keep in touch with people who, although not born in the Azores, are somehow interested in what is Azorean and ours.
The present times give us this great opportunity. It would be a shame not to take advantage of it.
This is the background that justifies the publishing of a new newspaper (March 24th) entitled “Mundo Açoriano”, which aims to contribute to the creation of a “single island”, encompassing the Archipelago and its ties with Europe, the Americas and any other region of the globe where there is someone born in the Azores.
If it’s a utopia, it does not matter. We need utopia more than ever.
Sailing is a vocation which has brought us this far and that will take us from here to the plying routes ahead.

Fonte:informe de divulgação
Crédito Imagem: fotógrafo Jorge Blayer Góis




por : Lélia Pereira Nunes e Irene Maria F. Blayer
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2011-03-17 19:20:10

“Armando e a Imprensa” — o caso de Voz do Longe ** Urbano Bettencourt


“Armando e a Imprensa”
— o caso de Voz do Longe
Urbano Bettencourt

    
Um tema como “Armando e a Imprensa” devia levar inevitavelmente a uma pesquisa demorada sobre o que foram as relações de Armando Côrtes-Rodrigues (ACR) com a imprensa, a participação do poeta em jornais e revistas, pelo menos nos que lhe ficavam mais próximos. E isso não apenas na sua qualidade de “colaborador” mais ou menos distanciado e exterior, mas também na outra dimensão, a de agente e participante interno e directo, como no caso da direcção da Insula, cargo que desempenhou a partir de 1934, isto é, na segunda fase da revista.
Mas, fosse aonde fosse que essa eventual pesquisa nos levasse, em termos quantitativos e ainda de continuidade no tempo, importaria sobretudo reter daí o sentido da relação do autor com a imprensa, que é também por extensão uma relação do escritor com o (seu) público. Esta será, afinal, a razão última dessa presença, que mantém em funcionamento um circuito de comunicação e intensifica o grau de cumplicidade de um autor com o leitor, do mesmo modo que atesta a proximidade com o seu tempo e lugar e a atenção ao mundo em que lhe foi dado viver.
E haveria que considerar ainda, num plano mais específico, a natureza dessa presença escrita, os moldes em que ela se concretiza, os diversos géneros que a corporizam. Há, com efeito, uma variação de grau e sentido comunicativos entre a publicação de um texto literário nas suas diferentes modalidades (e ACR deixou vários nas páginas da Insulana e da Açória, por exemplo) e a publicação de um apontamento impressivo ou cronístico, surgido na margem do quotidiano e provocando o comentário, a reflexão do autor. Neste último caso, a ancoragem no real próximo abre sempre caminho para uma pluralidade de registos, narrativo, evocativo, rememorativo, em que a livre associação e o fluir discursivo operam um efeito de maior transparência que permite melhor vislumbrar o perfil do autor, aquilo que constitui o seu modo de ver o mundo e os outros, a maneira de posicionar-se nesse mesmo mundo. Estaremos, aqui, a aproximar-nos muito mais da figura do autor, entidade cívica e lugar de cruzamento de interesses, gostos e preferências, linhas estéticas e ideológicas.
Como informação parentética destinada aos seus leitores, Voz do Longe traz, em cada um dos seus dois volumes, a seguinte rubrica: “Palestras escritas para serem proferidas no Emissor Regional dos Açores”. Nas “Palavras Prévias” que antecedem o Volume I, João Bernardo de Oliveira Rodrigues especifica: “…crónicas que, entre 1961 e 1966, redigiu para serem proferidas no Emissor Regional deste Arquipélago e a seguir publicadas no quotidiano de Ponta Delgada “Diário dos Açores” (Vol. I, p. VII).
As duas proposições suscitam algumas questões prévias à leitura dos textos de ACR. Por um lado, remetem para o seu veículo imediato de divulgação, a rádio, o que implicaria talvez alargar para “Armando e a Comunicação Social” o tema genérico desta aproximação a ACR. Por outro lado, as repercussões que esse facto poderá ter na aceitação ou concepção das tipologias de escrita a esperar, em função dos códigos e regras aplicáveis em cada um dos casos; na verdade, “palestra”, na sua acepção de conferência breve e de conversa ou cavaqueio, com reenvio à oralidade, parecerá o termo mais adequado ao enquadramento radiofónico dos textos de ACR. No entanto, a sua posterior publicação na imprensa suscitará sempre a questão de saber até que ponto a versão definitiva, impressa, corresponde fielmente à sua versão oral, em dimensão e em apuro verbal, estilístico, ou traduz um posterior trabalho de aperfeiçoamento e expansão e de adequação ao novo suporte de divulgação. Sem entrar em mais pormenores, que só uma consulta de eventuais registos gravados poderia esclarecer em definitivo, o que me parece, assim de imediato, é que estes textos atestam por si só um outro tempo da rádio, mais pausado e demorado, menos sujeito às imposições da cronometria interna e à ditadura das audiências e da “opinião pública”, a que Camilo Castelo Branco, talvez com alguma sobrecarga de sarcasmo, chamava “uma esfinge… com cabeça de burro”. Ou seja, tenho sérias dúvidas de que alguns textos (ou “os textos”) de Voz do Longe conseguissem hoje ser admitidos em qualquer espaço da rádio que temos — em virtude da sua extensão, da sua matéria e também em virtude do seu carácter fortemente pessoal e do estilo poético, chamamos-lhe assim; por todos esses aspectos, estes textos destoam do português primário, mercantil e burocrático com que nos deparamos por aí.
Abstraindo desses aspectos, concentremo-nos nas crónicas tal como nos chegaram através da sua compilação em Voz do Longe. “Crónicas” não deixa de ser uma designação cómoda, mas que me parece ser a que melhor dá conta da grande parte dos textos de ACR: os que partem de um breve motivo ou pretexto factual e se desenvolvem lançando mão da reflexão, do comentário, da evocação subjectiva e da convocação de outros factos afins (sejam eles sociais ou mesmo textuais). Construídos deste modo, os textos constituem-se como uma deriva muito pessoal, em que o autor vai projectando o seu olhar sobre o mundo envolvente e ao mesmo tempo, de forma mais directa ou mais indirecta, se vai expondo perante o leitor, revelando o seu perfil subjectivo e ideológico, as suas afinidades e mundividências.
Mas nem todos os textos caem sob uma tipologia desta natureza. Alguns situam-se num domínio da pura narrativa, como os que se acolhem sob o título de “apólogo” (o do “grilo cantador”, por exemplo, transformado numa espécie de desdobramento do poeta, do artista, uma versão masculina da cigarra cantadeira (ou do grilo falante, de Pinóquio?); outros entram no domínio da interpelação de um “tu” ou organizam-se na base de um diálogo ou, no mínimo, de uma fala, como acontece com aqueles em que surge a figura de Custódio Maria. Esta fluidez tipológica poderá talvez ser ainda vista como um traço da modernidade formal destas crónicas (e pense-se, por exemplo, naquilo que um autor como António Lobo Antunes recolhe sob essa designação).
Do ponto de vista da sua génese, podemos dizer, de modo abrangente, que estas crónicas vão surgindo ao ritmo do calendário, que o é em vários sentidos: em primeiro lugar, o do tempo no seu sentido cósmico e cívico, o decurso do tempo com as actividades humanas a ele associadas; depois também o calendário religioso, com as festividades e celebrações que marcam o ano. Encontramos, assim, crónicas como “Notas de Outubro” ou “Toadas de Janeiro” ou então “Para a noite de Natal” ou “Memento Homo”, que assinalam precisamente o andamento do tempo civil e a sua marcação religiosa. Outros assuntos, surgem , no entanto, como pretexto da escrita: um texto antigo, um livro que chegou, o Prémio Nobel e a loiça da Vila ou uma narrativa popular, uma personalidade, um acontecimento da vida micaelense (o teatro, a música, por exemplo), a visita a uma exposição de Vieira da Silva, em Paris.
Sob esta diversidade, podemos em síntese surpreender duas facetas ou vertentes de ACR, as mesmas que configuram, aliás, a sua obra poética: por um lado, o autor erudito e viajado pela literatura e cultura europeias — e seria interessante inventariar a “biblioteca” de Voz do Longe: Rilke, Schiller, Claudel, Valéry, Juan Ramon Jiménez, Cocteau, Lorca , só para referir alguns estrangeiros; por outro lado, o autor arreigado ao chão açoriano, às suas gentes e cultura. Se quiséssemos tipificar a questão, aproveitando elementos das próprias crónicas, diríamos que ACR oscila entre Fernando Pessoa e a Tia Marquinhas Pereira.
De resto, esta vertente popular açoriana, enquanto modo de aproximação ao mundo, encontra-se explicitada em pelo menos dois momentos de referência. Logo numa crónica dedicada a Vitorino Nemésio, mas em que evoca ainda Frederico Lopes, Maduro Dias e José da Lata, ACR acaba por fazer um elogio à Ilha Terceira, “que ainda hoje conserva, intacto e puro, o perfume secular das suas tradições” (Vol. I, p. 10); ao mesmo tempo, lamenta o autor a febre de modernice que noutros sítios despreza tudo isto e “teima em enfraquecer e desnacionalizar a força mais profunda e construtiva da unidade de um Povo e que se chama Tradição” (ibidem). Numa outra crónica sintomaticamente intitulada “Apologia de Angra”, ao evocar os tempos passados nesta cidade no início dos anos vinte, escreve ACR: “Nunca me esqueço de que foi ali que comecei a compreender, por maior evidência, a força prodigiosa da tradição portuguesa, mantida nos usos e nas almas das gentes destas Ilhas” (Vol. II, p. 135).
Os textos de Voz do Longe vão, no seu conjunto, traçando um perfil do autor, como se disse. Mas, não esquecendo a dupla natureza dos seus meios de divulgação, podemos entendê-los também numa dimensão pedagógica, de intervenção junto do público, no sentido de mantê-lo atento a um determinado mundo que tendia a esboroar-se nessa primeira metade dos anos sessenta. O que há ainda a realçar é que este “magistério”, chamemos-lhe assim, se exerce de uma forma discreta e apaziguada, mais pela exemplificação e exposição, por um processo de trazer ao olhar e ao gosto do público aquilo de que se gosta e em que se crê. Tudo isto sem que deva perder-se de vista a qualidade desta escrita, que não é só a do rigor sintáctico e ortográfico (coisas despiciendas hoje em dia, como a polémica recente a propósito de exames nacionais de português veio lembrar aos mais distraídos); as crónicas de ACR investem deliberadamente na dimensão estética da linguagem (sem qualquer “pudor” perante os meios de comunicação a que se destinava), com efeitos no seu ritmo maleável e na elegância que não hesita em variar de registo entre o culto e o popular, entre a frase grave e a de extracção oralizante, entre a anotação factual e o traço impressivo, impressionista mesmo.
Os poetas ou querem ser úteis ou dar prazer ou ambas as coisas ao mesmo tempo, escreveu Horácio (que cito de cor). O poeta que em Voz do Longe se exprime em prosa acolhe-se à última parte da frase do poeta latino, ainda na linha da retórica clássica que prescrevia a obrigação de ensinar deleitando.

_______________________________________
Notas:
1. Texto apresentado na Morada da Escrita/Casa Armando Côrtes-Rodrigues (31/5/2007), numa sessão em que participou igualmente o jornalista Gustavo Moura.
2.Armando Côrtes-Rodrigues, Voz do Longe. Ponta Delgada, Instituto Cultural, 1973-1974.











por : Lélia Pereira Nunes e Irene Maria F. Blayer
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2011-01-18 23:55:25

IAC apresenta: Açores, Europa  uma antologia. Onésimo T-Almeida,org.

IAC apresenta: Açores, Europa Z uma antologia.Onésimo T-Almeida,org.


Açores,Europa - uma antologia

No  dia 12 de Dezembro de 2010 foi apresentado ao público a mais recente obra do Instituto Açoriano de Cultura intitulada Açores, Europa – uma antologia, com selecção, organização e introdução de Onésimo Teotónio Almeida, numa iniciativa da Presidência do Governo Regional dos Açores, que teve lugar no Palácio dos Capitães Generais,Angra do Heroísmo,Ilha Terceira.

A cerimónia, contou com a presença do Professor Doutor Onésimo Teotónio Almeida, sendo presidida por Sua Ex.ª o Presidente do Governo Regional dos Açores.

“Historicamente, e até há pouco, os Açores eram uma pirâmide com a base voltada para as Américas e o vértice para Portugal. Não propriamente para a Europa, se bem que a bússola cultural da nossa classe média, média-alta e alta tenha sido precisamente a europeia, em regra na sua vertente francesa. Nisso não somos originais, seguimos o modelo predominante português, se bem que nos Açores tenha havido sempre, sobretudo em S. Miguel, uns quantos anglófilos. Assim, uma antologia de textos a ver com a Europa terá de juntar os escritos que refiram o interesse dessas figuras por países específicos da Europa – livros de viagens, cartas, artigos de jornal.

Antero, mais do que ninguém, pensa Portugal (e os Açores como adjacência) - a Ibéria aliás - como um bloco que perdeu o comboio da modernidade (ele não usou o termo, mas esse é o termo hoje corrente) e que, segundo ele, temos que recuperar. Mas ele é apenas um dos antologiados. Uma busca pela bibliografia açoriana acaba por produzir um elucidativo conjunto de textos de autores açorianos em diálogo com as ideias europeias. O volume deixar-nos-á assim com uma imagem dos Açores afinal não tão distantes da Europa pois os açorianos por ela viajaram com relativa assiduidade e as ideias europeias viajaram também sempre até aos nossos mares.”

Esta obra resulta de uma parceria entre o Governo dos Açores, através do Secretário Regional da Presidência, e o Instituto Açoriano de Cultura surge no âmbito da efeméride que  distinguiu os Açores como Região Europeia 2010.

(*). Texto de divulgação de autoria do IAC - Instituto Açoriano de Cultura, In: Newsletter IAC - N.º 39 09/12/2010 e atualizado.‏





por : Lélia Pereira Nunes
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Este blogue é  sobre a perspectiva da distância, o olhar de quem vive os Açores radicado na América do Norte, na Europa, no Brasil, ou em qualquer outra região. É escrito por personalidades de referência das nossas comunidades com ligações intensas ao arquipélago dos Açores.

Irene Maria F. Blayer was born in  Velas, São Jorge, Azores, and lives in Niagara-on-the-Lake, Ontario, Canada.  She holds a Ph.D. in Linguistics (1992) and is a Full Professor (Doutorada em linguística, é Professora Catedrática) at Brock University. Neste espaço procura-se a colaboração de colegas e amigos cujos textos, depoimentos, e outros -em Inglês, Português, Francês, ou Castelhano- sejam vozes que testemunhem a  nossa 'narrativa' diaspórica, ou se remetam a uma pluralidade de encontros onde se enquadra um universo  que  contempla uma íntima proximidade e cumplicidade com o nosso imaginário cultural e identitário.

Lélia Pereira da Silva Nunes - Brasil
Nasceu em Tubarão, vive em Florianópolis, Ilha de Santa Catarina. Socióloga, Professora da Universidade Federal de Santa Catarina, aposentada, investigadora do Patrimônio Cultural Imaterial (experts/UNESCO,Mercosul), escritora e, sobretudo, uma apaixonada pelos Açores. Este é um espaço, sem limites nem fronteiras, aberto ao diálogo plural sobre as nossas comunidades. Um espaço que, aproximando geografias, reflete mundivivências a partir do "olhar distante e olhar de casa," alicerçado no vínculo afetivo e intelectual com os Açores. Vozes açorianas, onde quer que vivam, espalhadas pelo mundo e, aqui reunidas num grande abraço fraterno, se fazem ouvir. Azorean descent.-- Born in Tubarão(SC) and  lives in Florianopolis, Santa Catarina Island,Brasil. She holds postgraduate degreees  in Public Administration, and is an Associate Professor at Federal University of Santa Catarina.

 

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